Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
C. Lispector
sábado, 19 de dezembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
(...) E, eu me senti cansada. De sentir tanto. Ensaiei um final no espelho do banheiro. E percebi no meu monólogo que eu precisava ter um pouco mais de verdade no meu discurso. E não tinha. Tudo que eu queria que não fosse, era. E, eu me senti cansada. Fui tirando cada peça de roupa, em um strip-tease mórbido. Sem música, sem teasing, sem tesão. Sem audiencia no banheiro sem luz e sem box.
Sobrepus cada uma das pecas que me revelaram nua, no aparador do banheiro. A torneira da pia estava entreaberta, e pingava. Mas fechá-la, me tiraria da cena que eu protagonizava, sem que fosse gravada. Deixei que água se desperdiçasse.
Abri o chuveiro e fechei, na tentativa de esquentá-lo. De frio, me bastava o chão e a espinha gelada. A água morna era para me dar coragem, o ritual precisava funcionar. Fui ao banheiro decidida a deixá-lo pingar de mim.
O vi descer por entre as pernas, depois de ter saído de cada um dos fios do meu cabelo, dos buracos da minha cabeca. Depois da água impregnada dele tivesse passado pela minha boca, que pela primeira vez repulsei.
Não quis beber nem uma gota d´água do que eu queria experlir.
A água foi seguindo o seu curso vertical, fez poça no meu umbigo e depois fez poça no meu pé. Eu repeti o enxague até que me soubesse limpa. Gargalhei da minha patética necessidade de ter um banho para expurgá-lo.
Quando me senti estupidamente vazia das minhas intençoes com aquele homem, vi que mais que ele tinha escorrido pelo meu corpo, eu me enxaguei os sonhos e de vontade. Estava limpa, sem vontade sem sonho. Me desesperei, eu não queria me ver livre de tudo o que eu construí. Fazia parte dos meus planos, ele era meu plano. Quis beber a água suja, empoçada, no meu pé. Quis Bebê-la toda até voltar ao estado impregnado dele. Mas não o fiz, achei que estava feito. E que era melhor que fosse assim.
Botei um pé para fora do tapete e, o outro. Me deparei com o espelho e, vi em mim a beleza que eu sempre quis que ele visse, sob aquele mesmo ângulo. Senti os olhos grandes e pretos dele por cima dos meus ombros. E me senti cansada, sem música, sem audiência, sem vontade. Foi quando eu percebi que precisava mais que banho para lavar por dentro, as minhas intenções. E, vi que nem que eu me lavasse do avesso, a água ia escorre-lo de mim.
Sobrepus cada uma das pecas que me revelaram nua, no aparador do banheiro. A torneira da pia estava entreaberta, e pingava. Mas fechá-la, me tiraria da cena que eu protagonizava, sem que fosse gravada. Deixei que água se desperdiçasse.
Abri o chuveiro e fechei, na tentativa de esquentá-lo. De frio, me bastava o chão e a espinha gelada. A água morna era para me dar coragem, o ritual precisava funcionar. Fui ao banheiro decidida a deixá-lo pingar de mim.
O vi descer por entre as pernas, depois de ter saído de cada um dos fios do meu cabelo, dos buracos da minha cabeca. Depois da água impregnada dele tivesse passado pela minha boca, que pela primeira vez repulsei.
Não quis beber nem uma gota d´água do que eu queria experlir.
A água foi seguindo o seu curso vertical, fez poça no meu umbigo e depois fez poça no meu pé. Eu repeti o enxague até que me soubesse limpa. Gargalhei da minha patética necessidade de ter um banho para expurgá-lo.
Quando me senti estupidamente vazia das minhas intençoes com aquele homem, vi que mais que ele tinha escorrido pelo meu corpo, eu me enxaguei os sonhos e de vontade. Estava limpa, sem vontade sem sonho. Me desesperei, eu não queria me ver livre de tudo o que eu construí. Fazia parte dos meus planos, ele era meu plano. Quis beber a água suja, empoçada, no meu pé. Quis Bebê-la toda até voltar ao estado impregnado dele. Mas não o fiz, achei que estava feito. E que era melhor que fosse assim.
Botei um pé para fora do tapete e, o outro. Me deparei com o espelho e, vi em mim a beleza que eu sempre quis que ele visse, sob aquele mesmo ângulo. Senti os olhos grandes e pretos dele por cima dos meus ombros. E me senti cansada, sem música, sem audiência, sem vontade. Foi quando eu percebi que precisava mais que banho para lavar por dentro, as minhas intenções. E, vi que nem que eu me lavasse do avesso, a água ia escorre-lo de mim.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Chico e eu
E, toda vez que eu me aproximo do universo de Chico, me ressalto. Às vezes, eu espalho os discos, os livros, as cifras, os olhos de Chico na cama e, me desespero. Nem com toda a repetição do mundo eu me aproximava de Chico. Deve ser porque Chico exauriu todas as minhas possibilidades, e as suas, não as dele.
Não era só a maestria de Chico que eu queria. Não era só falar todos os idiomas, nem saber inventar cidades, o que eu queria. Não era só saber escrever e compor e nem era os olhos de Chico que eu queria. Não sei. Eu, talvez quisesse um pouco mais de gratidão. Eu estou um pouco cansada dessa relação unilateral.
Eu quis muitas vezes ser a Teresa de Chico e, de meus outros amantes escritores. Deixá-los escrever no meu corpo inteiro, lê-los através do espelho e depois apagar tudo, para que nunca cessasse seus escritos. Eu urrei de raiva de Chico, quando ele contou a minha história toda numa canção, e disse que era de uma tal de Lilly Braun. Na infância, Chico me fez sorrir, saltimbanca, quando me escreveu 'João e Maria', enquanto eu ensaiava uns rocks para as matinês. Recentemente eu invejei Matilde, uma mulata que tem a cara da saudade.
Chico escreveu um livro de saudade, era saudade de Matilde. Eu sei, de viver mesmo, que saudade é essa. Tem a ver com feridas também. Tem saudade que não cicatriza, Chico disse que qualquer coisa que ele se recordava, doía, porque a memória é uma vasta ferida.
Aos 20, eu vasculhei a vida dele. Fui na porta da casa dele, o segui pela rua, e o vi. Eu perdi Chico na rua. Perdi porque ele corria. Não sei se corria de mim, mas corria rápido. Também! com aqueles tênis, devia deixar de escrever e ir fazer maratona.
Uma noite, eu dançava e entre uma gargalhada e outra, eu vi um par de olhos azuis ou verdes - ou as duas coisas - me cegando. Fiquei cara a cara com ele. Poderia tê-lo esbofeteado ou abraçado fraternamente, demoradamente ou grata.
Mas eu paralizei. Não enxergava nada que não fosse o nariz. Só vi nariz. O nariz dele parecia torto.
Tanto olho azul ou verde - ou as duas cores - para olhar e, eu só consegui enxergar o nariz. E dessa vez, quem correu fui eu, de tanta coisa que senti.
Certa vez, fui escrever sobre ditadura, música, formas complementares de comunicação durante os anos de censura. Chico era a linha do meu alinhave. Dediquei longos 18 meses de pesquisa a Chico. Chico homem, filho, mito, saltimbanco, protestante, malandro, escritor, amante, Chico. E sabe? depois de me promover a conhecedora da obra e da alma dele, decidi que eu tinha era dó dele. O dom parecia uma espécie de esquizofrenia, uma maldição, com a qual ele, garboso, não sabia lidar.A fama era uma roupa de festa, que ele não queria vestir. Ele queria colocar uma calção e um tênis e correr dos outros, e de mim.
Eu desdenho, porque o amo. E, é patológico e patético. Eu sei. Mas, ainda vou reclamar meus direitos a ele. Como quem reclama a paternidade de um filho. Vou bater bem na porta da casa dele e vou dizer: Estou cansada dessa nossa relação unilateral. E vou me embora. Satisfeita, de ver de novo aquele nariz.
Eu admiro, tenho inveja, eu sinto falta, me delicio, eu tenho carinho, eu me aconselho, eu me protejo, eu me projeto. Mas de tudo o que eu sinto, ciúmes é o que eu sinto mais. Eu morro é de ciúmes de Chico. Anos desses ai, acordei para um dia ruim. Como acordar numa tempestade nua. A sensação de traição que tive quando passei pela banca de jornal e vi Chico aos beijos com uma morena misteriosa, me ruiu o chão. Entre as minhas pernas caíram a revista e a lágrima. De que mistérios ela se vale para valer os beijos do Chico?
Ela - que nem mulata era, como Matilde - não sabe o transtorno que me causou. Tive que cancelar a gravação de um depoimento de Chico, por conta de uma capa na revista de mexiricos. Por conta de uns beijinhos, e só.
Sim, porque eu sei que foi só isso mesmo, uns beijinhos e só, pelo que me consta Chico anda enrabixado com essa tal de Matilde, a mulata. Ele até escreveu pra ela, que se ela soubesse como gosta das suas cheganças, chegaria correndo todos os dias. Foi o que eu pensei em dizer a alguém que anda distante, mas Chico disse a Matilde e ela não voltou. Não achei que fosse funcionar também.
Quando eu já não cabia nas minhas tonteiras e zumbidos entre as minhas orelhas, fui procurar um doutor, que me receitou remédio de tarja preta. A guia era azul e eu queria mesmo era recitar Chico: "é inútil me entupir de remédio, bobagem continuar deitado nessa cama, sem minha mulher não sei dormir".
Se o doutor soubesse o quanto Chico me apazigua e me desespera, acho que me receitaria algo mais forte.
Uma vez, me faltou palavras para explicar saudade, me faltou força p'ra fazer parar a dor da ausência de alguém. Ai Chico me explicou, que saudade era arrumar o quarto de um filho que já morreu. E eu me senti feliz, dessa saudade eu não tinha ciência. Até outra saudade me assaltar, quando a cama ficou grande para o meu corpo. Chico disse que ele também sofria de saudade ao dormir. Disse que parou de rolar a noite, durante o sono, para não acordar no lado direito da cama, onde o colchão permanecia côncavo dela, de Matilde. Eu ofereci um brinde ao meu par, porque ele sabe de todas as coisas. De todas as minhas coisas, e de onde dói mais. É aonde me dóin sazonalmente a ferida, aquela da memória, de não esquecer.
Você pode achar que é sexual, vai inventar teorias e até citar o Édipo Rei. Talvez pela falta de exame das palavras, eu tenha deixado a impressão que a minha relação com Chico é sexual. Não confunda as coisas e sobretudo não me ponha em maus lençóis. O que eu sinto por Chico é mais. Chico é uma porta que eu gosto de deixar aberta dentro de mim. Eu gosto de imaginar que hão de existir outros Chicos para eu amar, e que eu possa receber as inscrições no meu corpo, igualzinho Chico fez com Teresa. Eu queria mesmo era ser uma das Teresas para o liricista que eu amei.
A dicotomia dos meus sentimentos e o maniqueísmo que perdura entre amá-lo e desprezá-lo - pelos motivos que eu já mencionei - me arreganha e me atarraca na consunção que é o amor de todas as mulheres por Chico.
Logo eu, que nunca gostei de ser comum. Não há mesmo explicação. Cismo que ele é a aberração mais perfeita e que ninguém vai se aproximar dele.
Nem eu, que espalho na minha cama os versos do Chico, os olhos azuis ou verdes - ou as duas cores - o nariz, o tênis. Nem eu, que me cubro com a melodia dele e, faço dos romances de Chico, meu travesseiro.
Não era só a maestria de Chico que eu queria. Não era só falar todos os idiomas, nem saber inventar cidades, o que eu queria. Não era só saber escrever e compor e nem era os olhos de Chico que eu queria. Não sei. Eu, talvez quisesse um pouco mais de gratidão. Eu estou um pouco cansada dessa relação unilateral.
Eu quis muitas vezes ser a Teresa de Chico e, de meus outros amantes escritores. Deixá-los escrever no meu corpo inteiro, lê-los através do espelho e depois apagar tudo, para que nunca cessasse seus escritos. Eu urrei de raiva de Chico, quando ele contou a minha história toda numa canção, e disse que era de uma tal de Lilly Braun. Na infância, Chico me fez sorrir, saltimbanca, quando me escreveu 'João e Maria', enquanto eu ensaiava uns rocks para as matinês. Recentemente eu invejei Matilde, uma mulata que tem a cara da saudade.
Chico escreveu um livro de saudade, era saudade de Matilde. Eu sei, de viver mesmo, que saudade é essa. Tem a ver com feridas também. Tem saudade que não cicatriza, Chico disse que qualquer coisa que ele se recordava, doía, porque a memória é uma vasta ferida.
Aos 20, eu vasculhei a vida dele. Fui na porta da casa dele, o segui pela rua, e o vi. Eu perdi Chico na rua. Perdi porque ele corria. Não sei se corria de mim, mas corria rápido. Também! com aqueles tênis, devia deixar de escrever e ir fazer maratona.
Uma noite, eu dançava e entre uma gargalhada e outra, eu vi um par de olhos azuis ou verdes - ou as duas coisas - me cegando. Fiquei cara a cara com ele. Poderia tê-lo esbofeteado ou abraçado fraternamente, demoradamente ou grata.
Mas eu paralizei. Não enxergava nada que não fosse o nariz. Só vi nariz. O nariz dele parecia torto.
Tanto olho azul ou verde - ou as duas cores - para olhar e, eu só consegui enxergar o nariz. E dessa vez, quem correu fui eu, de tanta coisa que senti.
Certa vez, fui escrever sobre ditadura, música, formas complementares de comunicação durante os anos de censura. Chico era a linha do meu alinhave. Dediquei longos 18 meses de pesquisa a Chico. Chico homem, filho, mito, saltimbanco, protestante, malandro, escritor, amante, Chico. E sabe? depois de me promover a conhecedora da obra e da alma dele, decidi que eu tinha era dó dele. O dom parecia uma espécie de esquizofrenia, uma maldição, com a qual ele, garboso, não sabia lidar.A fama era uma roupa de festa, que ele não queria vestir. Ele queria colocar uma calção e um tênis e correr dos outros, e de mim.
Eu desdenho, porque o amo. E, é patológico e patético. Eu sei. Mas, ainda vou reclamar meus direitos a ele. Como quem reclama a paternidade de um filho. Vou bater bem na porta da casa dele e vou dizer: Estou cansada dessa nossa relação unilateral. E vou me embora. Satisfeita, de ver de novo aquele nariz.
Eu admiro, tenho inveja, eu sinto falta, me delicio, eu tenho carinho, eu me aconselho, eu me protejo, eu me projeto. Mas de tudo o que eu sinto, ciúmes é o que eu sinto mais. Eu morro é de ciúmes de Chico. Anos desses ai, acordei para um dia ruim. Como acordar numa tempestade nua. A sensação de traição que tive quando passei pela banca de jornal e vi Chico aos beijos com uma morena misteriosa, me ruiu o chão. Entre as minhas pernas caíram a revista e a lágrima. De que mistérios ela se vale para valer os beijos do Chico?
Ela - que nem mulata era, como Matilde - não sabe o transtorno que me causou. Tive que cancelar a gravação de um depoimento de Chico, por conta de uma capa na revista de mexiricos. Por conta de uns beijinhos, e só.
Sim, porque eu sei que foi só isso mesmo, uns beijinhos e só, pelo que me consta Chico anda enrabixado com essa tal de Matilde, a mulata. Ele até escreveu pra ela, que se ela soubesse como gosta das suas cheganças, chegaria correndo todos os dias. Foi o que eu pensei em dizer a alguém que anda distante, mas Chico disse a Matilde e ela não voltou. Não achei que fosse funcionar também.
Quando eu já não cabia nas minhas tonteiras e zumbidos entre as minhas orelhas, fui procurar um doutor, que me receitou remédio de tarja preta. A guia era azul e eu queria mesmo era recitar Chico: "é inútil me entupir de remédio, bobagem continuar deitado nessa cama, sem minha mulher não sei dormir".
Se o doutor soubesse o quanto Chico me apazigua e me desespera, acho que me receitaria algo mais forte.
Uma vez, me faltou palavras para explicar saudade, me faltou força p'ra fazer parar a dor da ausência de alguém. Ai Chico me explicou, que saudade era arrumar o quarto de um filho que já morreu. E eu me senti feliz, dessa saudade eu não tinha ciência. Até outra saudade me assaltar, quando a cama ficou grande para o meu corpo. Chico disse que ele também sofria de saudade ao dormir. Disse que parou de rolar a noite, durante o sono, para não acordar no lado direito da cama, onde o colchão permanecia côncavo dela, de Matilde. Eu ofereci um brinde ao meu par, porque ele sabe de todas as coisas. De todas as minhas coisas, e de onde dói mais. É aonde me dóin sazonalmente a ferida, aquela da memória, de não esquecer.
Você pode achar que é sexual, vai inventar teorias e até citar o Édipo Rei. Talvez pela falta de exame das palavras, eu tenha deixado a impressão que a minha relação com Chico é sexual. Não confunda as coisas e sobretudo não me ponha em maus lençóis. O que eu sinto por Chico é mais. Chico é uma porta que eu gosto de deixar aberta dentro de mim. Eu gosto de imaginar que hão de existir outros Chicos para eu amar, e que eu possa receber as inscrições no meu corpo, igualzinho Chico fez com Teresa. Eu queria mesmo era ser uma das Teresas para o liricista que eu amei.
A dicotomia dos meus sentimentos e o maniqueísmo que perdura entre amá-lo e desprezá-lo - pelos motivos que eu já mencionei - me arreganha e me atarraca na consunção que é o amor de todas as mulheres por Chico.
Logo eu, que nunca gostei de ser comum. Não há mesmo explicação. Cismo que ele é a aberração mais perfeita e que ninguém vai se aproximar dele.
Nem eu, que espalho na minha cama os versos do Chico, os olhos azuis ou verdes - ou as duas cores - o nariz, o tênis. Nem eu, que me cubro com a melodia dele e, faço dos romances de Chico, meu travesseiro.
tic tac
Na velocidade do relógio
tic tac
ao som do suserano tempo
tic tac
passa o homem, passa o vento
tic tac
passa novela, nasce criança
tic tac
e a criança cresce,
tic tac
vem encontro, noivado, casamento, batizado
tic tac
na velocidade do nervoso
tic tac
e na calmaria do esquecimento
tic tac
passa o mundo, e os lugares
tic tac
vem e vai, num trânsito louco entre as cidades
tic tac
de um lado
passa você
do outro
passo eu
um ponteiro
marca você
o outro,
marca eu
tic
só você não passa
tac.
tic tac
ao som do suserano tempo
tic tac
passa o homem, passa o vento
tic tac
passa novela, nasce criança
tic tac
e a criança cresce,
tic tac
vem encontro, noivado, casamento, batizado
tic tac
na velocidade do nervoso
tic tac
e na calmaria do esquecimento
tic tac
passa o mundo, e os lugares
tic tac
vem e vai, num trânsito louco entre as cidades
tic tac
de um lado
passa você
do outro
passo eu
um ponteiro
marca você
o outro,
marca eu
tic
só você não passa
tac.
me faço
Eu me faço de besta
eu me faço de gansa
eu me faço de lesma
eu me faço de tansa
eu me faço de gata
eu me faço de mansa
eu me faço de rata
eu me faço de santa
eu me faço de virgem
eu me faço de insana
eu me faço de boa
eu me faço fácil de difícil
eu me faço difícil de janta.
eu me faço no altar.
eu me faço na cama.
eu me faço de gansa
eu me faço de lesma
eu me faço de tansa
eu me faço de gata
eu me faço de mansa
eu me faço de rata
eu me faço de santa
eu me faço de virgem
eu me faço de insana
eu me faço de boa
eu me faço fácil de difícil
eu me faço difícil de janta.
eu me faço no altar.
eu me faço na cama.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
sorte
a pluma apruma
e, eu sigo
o vai e vem no ar
a pluma paira
quase pára
branca no contraste com o céu.
a pluma vai pousar
no caminho que eu vou seguir
ou, no caminho que eu vou recuar.
e, eu sigo
o vai e vem no ar
a pluma paira
quase pára
branca no contraste com o céu.
a pluma vai pousar
no caminho que eu vou seguir
ou, no caminho que eu vou recuar.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
pede
você me pede paciência
eu não tenho mais de onde tirar.
você me pede um filho
e sabe, que eu não posso gerar.
você me pede calma
e, eu preciso ir até a farmácia buscar.
eu não tenho mais de onde tirar.
você me pede um filho
e sabe, que eu não posso gerar.
você me pede calma
e, eu preciso ir até a farmácia buscar.
telha
quem me aconselha
não sabe, nem de longe
o que tem debaixo da minha telha.
quem me aconselha
não faz ideia
da festa que a gente faz em silêncio
e, do barulho que tem a nossa paz.
quem me aconselha,
quem me manda andar,
não iria à esquina
se soubesse que eu nunca quis
contos de fadas.
que eu não nunca quis histórias
com começo, meio
e fim, anunciado.
quem me aconselha, não sabe
que eu gosto da nossa foda
e, que a gente tenta
mas, não se larga.
quem me aconselha não sabe
que a gente começa pelo fim,
se encanta com o começo
e fica no meio, feliz.
quem me aconselha não sabe
que eu quero mesmo
é ficar bem em baixo,
da sua telha.
não sabe, nem de longe
o que tem debaixo da minha telha.
quem me aconselha
não faz ideia
da festa que a gente faz em silêncio
e, do barulho que tem a nossa paz.
quem me aconselha,
quem me manda andar,
não iria à esquina
se soubesse que eu nunca quis
contos de fadas.
que eu não nunca quis histórias
com começo, meio
e fim, anunciado.
quem me aconselha, não sabe
que eu gosto da nossa foda
e, que a gente tenta
mas, não se larga.
quem me aconselha não sabe
que a gente começa pelo fim,
se encanta com o começo
e fica no meio, feliz.
quem me aconselha não sabe
que eu quero mesmo
é ficar bem em baixo,
da sua telha.
trânsito
tanta coisa
que eu apaguei
depois de escrever
tanta gente
que eu não liguei
tanta festa
que eu me arrumei.
fantástica
quantas vezes
eu decidi voltar
e tantas outras
eu resolvi partir
e no meio do trânsito
eu me movimento.
estática
tanto que eu me apaziguo
e quanto eu me jogo ao fogo
e, se eu reclamar de tédio
diga-me que sou ingrata
porque o tumulto é o meu vício
e andar é meu remédio.
mais nada.
que eu apaguei
depois de escrever
tanta gente
que eu não liguei
tanta festa
que eu me arrumei.
fantástica
quantas vezes
eu decidi voltar
e tantas outras
eu resolvi partir
e no meio do trânsito
eu me movimento.
estática
tanto que eu me apaziguo
e quanto eu me jogo ao fogo
e, se eu reclamar de tédio
diga-me que sou ingrata
porque o tumulto é o meu vício
e andar é meu remédio.
mais nada.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
cozinha
Coma o meu sorriso
no desdejum
no almoço
no lanche da tarde.
Janta o meu sorriso
na bandeja, na cama
ou em cima da mesa.
Merenda a minha paz
mastiga de desejo
e aperta entre os dentes
a carne,
que é sua.
Seu doce,
seu pó branco, sal
me cozinhe, me vigie
põe cachaça
funga meu cheiro
e bebe eu.
no vapor da ebulição
se esquente,
vem quente
à mesa posta
a gula
a luxuria.
Coma meus beijos
no desdejum
dia após dia
no almoço
no lanche da tarde.
Janta os meus beijos
na cama, ou em cima da mesa.
no desdejum
no almoço
no lanche da tarde.
Janta o meu sorriso
na bandeja, na cama
ou em cima da mesa.
Merenda a minha paz
mastiga de desejo
e aperta entre os dentes
a carne,
que é sua.
Seu doce,
seu pó branco, sal
me cozinhe, me vigie
põe cachaça
funga meu cheiro
e bebe eu.
no vapor da ebulição
se esquente,
vem quente
à mesa posta
a gula
a luxuria.
Coma meus beijos
no desdejum
dia após dia
no almoço
no lanche da tarde.
Janta os meus beijos
na cama, ou em cima da mesa.
domingo, 20 de setembro de 2009
faz favor de dar licença
mas que bom
me deu um tempo
essa tal felicidade
coisa chata
é não ter de quê reclamar.
agora eu sento aqui
e tenho tanta conta
pra acertar
tanta gente pra xingar
uma lista de palavras feias
pra designar covardias
e, essas coisas
de desinteresse pela vida.
eu já tava puta
de só querer falar de espera
de chegada, de amor,
salvação e cura
e, essa porra toda de ilusão.
a verdade é que graças a deus
me deu um tempo,
essa tal felicidade
que assim, eu tenho
um pouco mais de verdade
e amanhã eu tenho que planejar
o dia que vem depois de amanhã
que essa brincadeira
me deixou no vermelho
no banco real.
me deu um tempo
essa tal felicidade
coisa chata
é não ter de quê reclamar.
agora eu sento aqui
e tenho tanta conta
pra acertar
tanta gente pra xingar
uma lista de palavras feias
pra designar covardias
e, essas coisas
de desinteresse pela vida.
eu já tava puta
de só querer falar de espera
de chegada, de amor,
salvação e cura
e, essa porra toda de ilusão.
a verdade é que graças a deus
me deu um tempo,
essa tal felicidade
que assim, eu tenho
um pouco mais de verdade
e amanhã eu tenho que planejar
o dia que vem depois de amanhã
que essa brincadeira
me deixou no vermelho
no banco real.
breatheless
e de repente você me falta
e eu roo unha
e a barriga queima
e a boca seca
e, me falta ar
e, é quando você regressa
que eu faço festa
que bambeia as pernas
que me corre a pressa
e, me falta o ar
e de repente você me falta
e de repente você regressa
e, ar eu já não tenho
nem pulmão
nessa casa do tabuleiro
já evolui a outro mecanismo
de respirãção.
e, mutante eu sigo
nas suas indas e vindas
sem saber se eu devo ir
ou, se só sou mesmo feliz, se ficar.
porque respirar mesmo, eu não respiro
e eu roo unha
e a barriga queima
e a boca seca
e, me falta ar
e, é quando você regressa
que eu faço festa
que bambeia as pernas
que me corre a pressa
e, me falta o ar
e de repente você me falta
e de repente você regressa
e, ar eu já não tenho
nem pulmão
nessa casa do tabuleiro
já evolui a outro mecanismo
de respirãção.
e, mutante eu sigo
nas suas indas e vindas
sem saber se eu devo ir
ou, se só sou mesmo feliz, se ficar.
porque respirar mesmo, eu não respiro
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Convidada
Meu bem, que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
Do teu penoso altar particular
Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje, sinto que
o tempo da cura tornou a tristeza normal
Então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós
Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós
Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver como se deve ser
Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo, faço melhor do que lhe parecer
Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor
Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta
by Maria Gadu
E pôs meu frágil coração na cruz
Do teu penoso altar particular
Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje, sinto que
o tempo da cura tornou a tristeza normal
Então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós
Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós
Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver como se deve ser
Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo, faço melhor do que lhe parecer
Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor
Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta
by Maria Gadu
quinta-feira, 23 de julho de 2009
fragmentos
te acompanhar nas tuas curas
ser a tua cura
e a minha.
eu quero a ponte aérea,
eu quero a espera.
mas, eu quero mais a chegada.
ser a tua cura
e a minha.
eu quero a ponte aérea,
eu quero a espera.
mas, eu quero mais a chegada.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
na quebrada
tem gente na quebrada
quebrando a cara
beijando a lata
negando um abraço em casa
não dá pra saber aonde dói mais
se é pára mãe, para o pai, para o filho
ou se é para quem faz
noite dessas
atravessando o sinal
vi que tinha dois ou três ´nóia´
armando pra cima de mim
me espantei - quando engatei a primeira
e percebi que eu passaria por cima de qualquer um deles.
simples assim.
ando pela rua procurando o rosto do meu irmão
nas faces de todos os que andam na madrugada
e corta, sangra, dilacera quando eu vejo um conhecido,
e realizo que eu perdi muitos dos meus amigos
tem muita gente na quebrada
quebrando a cara
beijando lata
roubando em casa
cada vez que a gente ignora
é um deles que a gente mata
o tiro sai sempre pela culatra
tem muita gente quebrando a cara
na quebrada, e cada um deles que a gente ignora
é um pedaço da gente que morre
é um deles que a gente mata.
quebrando a cara
beijando a lata
negando um abraço em casa
não dá pra saber aonde dói mais
se é pára mãe, para o pai, para o filho
ou se é para quem faz
noite dessas
atravessando o sinal
vi que tinha dois ou três ´nóia´
armando pra cima de mim
me espantei - quando engatei a primeira
e percebi que eu passaria por cima de qualquer um deles.
simples assim.
ando pela rua procurando o rosto do meu irmão
nas faces de todos os que andam na madrugada
e corta, sangra, dilacera quando eu vejo um conhecido,
e realizo que eu perdi muitos dos meus amigos
tem muita gente na quebrada
quebrando a cara
beijando lata
roubando em casa
cada vez que a gente ignora
é um deles que a gente mata
o tiro sai sempre pela culatra
tem muita gente quebrando a cara
na quebrada, e cada um deles que a gente ignora
é um pedaço da gente que morre
é um deles que a gente mata.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Eu morri
e, nunca mais nasci.
Hoje eu vi que eu não nasci.
Todos os dias eu me equilibrei,
entre o céu do instante
e o inferno constante.
[umbral]
Hoje eu me perguntei.
O que diabos eu faria se tudo fosse diferente,
e porque o paraíso se afastou da gente
e sofri.
Hoje eu olhei no espelho,
e não reconheci nenhuma das suas mulheres
- que eu fui,
não me vi nas cartas que escrevi,
- e, reli hoje,
e não senti nem de longe, nem um triz
do amor que você guardou pra mim.
Hoje eu enxerguei o vazio
que ficou no lugar do coração.
Hoje eu vi que eu morri,
e, perambulei, e vago
na espera da vingança.
Hoje eu vi, que lustro a arma,
e ponho a bala,
do tiro que eu vou dar em você.
Hoje eu vi, que a arma está apontada pra mim.
Eu vi, que eu nunca mais nasci.
No dia que eu matei você, eu morri.
e, nunca mais nasci.
Hoje eu vi que eu não nasci.
Todos os dias eu me equilibrei,
entre o céu do instante
e o inferno constante.
[umbral]
Hoje eu me perguntei.
O que diabos eu faria se tudo fosse diferente,
e porque o paraíso se afastou da gente
e sofri.
Hoje eu olhei no espelho,
e não reconheci nenhuma das suas mulheres
- que eu fui,
não me vi nas cartas que escrevi,
- e, reli hoje,
e não senti nem de longe, nem um triz
do amor que você guardou pra mim.
Hoje eu enxerguei o vazio
que ficou no lugar do coração.
Hoje eu vi que eu morri,
e, perambulei, e vago
na espera da vingança.
Hoje eu vi, que lustro a arma,
e ponho a bala,
do tiro que eu vou dar em você.
Hoje eu vi, que a arma está apontada pra mim.
Eu vi, que eu nunca mais nasci.
No dia que eu matei você, eu morri.
terça-feira, 31 de março de 2009
segunda-feira, 30 de março de 2009
Clarice e eu
Eu velava o sonho de ser um dia lida e, entendida. Assim como eu lia e, entendia Clarice. Tão íntima amiga, Clarice. Como se ela sentasse ao meu lado acendesse seu cigarro e queimasse a cama onde eu durmo. Acordo até com cicatrizes de Clarice.
Durante algum tempo eu pretendia ser triste, para escrever melhor e me assemelhar a minha musa mor, Clarice. A tristeza não fez bem a mim, talvez tenha feito aos meus escritos, mas a tristeza que nutri durante os meus anos de vida - adolescendo - e, os primeiros dos meus vintes, não foi sendo matéria suficiente.
Fui descobrindo que a vilã também me inspirava, e que, a tarada, a amada, que a bem casada, que tantas outras eu, me inspirava. E, fui me alegrando até ser irritantemente alegre. Tomara que ela, minha Clarice, não tenha se zangado.
Eu vivi vários momentos felizes, constituindo uma felicidade, vazia e tranquila, exercitando a aceitação, me deliciando em um tranquilissimo delírio de Clarice.
Fui fazendo da minha vida um neutro artesanato, que não almejava ser demais, e, nem de menos. Fui querendo menos e encaixando as vontades, controlando a ansiedade e, evitando supérfluos.
A Clarice me é muito ansiosa. Clarice me deixa ansiosa quando me atiça perguntando: “Por que a coisa nua é tão tediosa?” Convidando- me a enfeitar tudo – e complicar tudo – e, a mim.
Clarice de repente me acalma, afana, abana quando diz que tudo começa com um sim. Simples assim, simplicidade que não é comum a Clarice.
Clarice me aconselha dizendo que só eu saberei se a falha é necessária, e disso eu me municio para ser entendedora de mim, e passe bem, obrigada!
O sotaque de Clarice me confunde um pouco e, ela me irrita nas suas produções irrevisáveis, infalíveis, impecáveis, de português tão invejado, e tão pouco dela.
Clarice me irrita quando eu não consigo terminar um conto. Ela o fazia a mão, em calígrafos quase que desenhados – arte – e, escrevia tanto. Tão constante Clarice. Tão inconstante Clarice. Nesse momento, eu vejo Clarice rindo de mim, jogando fumaça na minha cara, debochada, engraçada com aquela língua presa - que ela nega - me convidando a descer ao inferno.
“O divino pra mim é o real!” Me lembra Clarice. Sem dar uma forma, nada me existe. Logo, me aproximo do inferno – só quem sabe é o escritor – o inferno é o meu máximo.
Assim, resolvo terminar por aqui sem que tenha começado. Vou deixar Clarice, irritada e sozinha. Por hoje não escrevo mais, nem penso - e também não a quero, nem aos seus cigarros incendiadores de cama, no meu quarto. Vou deixar Clarice por hoje, e também suas baratas e escatologias disfarçadas. Vou deixá-la com Macabéa, esperando ansiosa - esperançosa de que eu vou voltar a ela [eu sempre volto pra ela] com saudades de mim, e, do que eu deveria ser.
Durante algum tempo eu pretendia ser triste, para escrever melhor e me assemelhar a minha musa mor, Clarice. A tristeza não fez bem a mim, talvez tenha feito aos meus escritos, mas a tristeza que nutri durante os meus anos de vida - adolescendo - e, os primeiros dos meus vintes, não foi sendo matéria suficiente.
Fui descobrindo que a vilã também me inspirava, e que, a tarada, a amada, que a bem casada, que tantas outras eu, me inspirava. E, fui me alegrando até ser irritantemente alegre. Tomara que ela, minha Clarice, não tenha se zangado.
Eu vivi vários momentos felizes, constituindo uma felicidade, vazia e tranquila, exercitando a aceitação, me deliciando em um tranquilissimo delírio de Clarice.
Fui fazendo da minha vida um neutro artesanato, que não almejava ser demais, e, nem de menos. Fui querendo menos e encaixando as vontades, controlando a ansiedade e, evitando supérfluos.
A Clarice me é muito ansiosa. Clarice me deixa ansiosa quando me atiça perguntando: “Por que a coisa nua é tão tediosa?” Convidando- me a enfeitar tudo – e complicar tudo – e, a mim.
Clarice de repente me acalma, afana, abana quando diz que tudo começa com um sim. Simples assim, simplicidade que não é comum a Clarice.
Clarice me aconselha dizendo que só eu saberei se a falha é necessária, e disso eu me municio para ser entendedora de mim, e passe bem, obrigada!
O sotaque de Clarice me confunde um pouco e, ela me irrita nas suas produções irrevisáveis, infalíveis, impecáveis, de português tão invejado, e tão pouco dela.
Clarice me irrita quando eu não consigo terminar um conto. Ela o fazia a mão, em calígrafos quase que desenhados – arte – e, escrevia tanto. Tão constante Clarice. Tão inconstante Clarice. Nesse momento, eu vejo Clarice rindo de mim, jogando fumaça na minha cara, debochada, engraçada com aquela língua presa - que ela nega - me convidando a descer ao inferno.
“O divino pra mim é o real!” Me lembra Clarice. Sem dar uma forma, nada me existe. Logo, me aproximo do inferno – só quem sabe é o escritor – o inferno é o meu máximo.
Assim, resolvo terminar por aqui sem que tenha começado. Vou deixar Clarice, irritada e sozinha. Por hoje não escrevo mais, nem penso - e também não a quero, nem aos seus cigarros incendiadores de cama, no meu quarto. Vou deixar Clarice por hoje, e também suas baratas e escatologias disfarçadas. Vou deixá-la com Macabéa, esperando ansiosa - esperançosa de que eu vou voltar a ela [eu sempre volto pra ela] com saudades de mim, e, do que eu deveria ser.
domingo, 29 de março de 2009
Ode ao Lucca
A beleza condensada ali.
suspeição da obviedade.
Amor imenso.
Moreno. É o maior.
O sorriso
[desenhado a compasso e grafite macio]
O olhar
[dois bilhares, brilhantes de cor escura e penetrante]
A pele
[a melanina da pele]
Moreno. É o maior.
Atiça com o charme que herdou,
pára nele todas as dispersões
-ele concentra todas as atenções.
Moreno. É o maior.
Ele, que a luz não cabe
[de tão pequeno o corpo]
Se excede pelos poros, a luz.
E, de luz nos enxarca e embriaga
- de felicidade.
Meu moreno,
amor maior.
sexta-feira, 13 de março de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
Eu descrevo
vou passeando as palavras
enquanto o sono não vem.
Às vezes acordo para que elas saiam
-as borboletas fazendo bagunça no meu pensamento.
Aí eu levanto
e abro a janela.
Enquanto isso, eu procuro por emprego,
alguma coisa que me dê dinheiro
e, que inevitavelmente
vá matar minhas borboletas
que eu escrevo.
vou passeando as palavras
enquanto o sono não vem.
Às vezes acordo para que elas saiam
-as borboletas fazendo bagunça no meu pensamento.
Aí eu levanto
e abro a janela.
Enquanto isso, eu procuro por emprego,
alguma coisa que me dê dinheiro
e, que inevitavelmente
vá matar minhas borboletas
que eu escrevo.
sábado, 7 de março de 2009
Janaína
Eu visto azul
Ele branco
- da cor da minha paz.
Eu sou o mar dele
E a gente se banha de vontade.
Permissão para imaginar:
doce, salobra, salgado
pr´a casa, eu vou aprender a voltar.
Ele branco
- da cor da minha paz.
Eu sou o mar dele
E a gente se banha de vontade.
Permissão para imaginar:
doce, salobra, salgado
pr´a casa, eu vou aprender a voltar.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Riqueza
Não existe poesia na dureza,
fica todo mundo com cara de fome.
Sem paciência, sem modos
todo mundo perde as estribeiras.
Mas, pensando melhor,
a dureza tem lá a sua beleza:
Hoje olhei pra minha irmã e disse:
- Ainda bem que você é de graça!
(Jeovanna e Tatiana Vieira)
fica todo mundo com cara de fome.
Sem paciência, sem modos
todo mundo perde as estribeiras.
Mas, pensando melhor,
a dureza tem lá a sua beleza:
Hoje olhei pra minha irmã e disse:
- Ainda bem que você é de graça!
(Jeovanna e Tatiana Vieira)
Capetalismo
Money, grana, bufunfa,
a moeda que é o garfo do capeta.
Te compra a viagem para o céu,
e garante a estadia no inferno.
Dinheiro e suas dinheirices!
Tira o sossego e o sorriso,
no tempo de um extrato.
a moeda que é o garfo do capeta.
Te compra a viagem para o céu,
e garante a estadia no inferno.
Dinheiro e suas dinheirices!
Tira o sossego e o sorriso,
no tempo de um extrato.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Eu no barco, você no cais
Senta num cais
e mira um barco ao se afastar.
-Em certo momento -
não mais o alcaçarás.
E aí, serão só os espaços:
entre o cais e o barco
- a imensidão do mar,
entre o que queres enxergar
- e o que de fato vês.
Espaço,
entre o que você teve,
e o que você já perdeu.
e mira um barco ao se afastar.
-Em certo momento -
não mais o alcaçarás.
E aí, serão só os espaços:
entre o cais e o barco
- a imensidão do mar,
entre o que queres enxergar
- e o que de fato vês.
Espaço,
entre o que você teve,
e o que você já perdeu.
sábado, 24 de janeiro de 2009
[ des ]culpa
Se embrulha todo de desculpas
[ um triste olhar alegre ]
e comete repetidamente todos os seus pecados.
[ um triste olhar alegre ]
e comete repetidamente todos os seus pecados.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
O Rio
O janeiro do Rio
e o fevereiro
e o março que eu não vou estar aqui.
Vou contar os dias pra ver o pôr do sol, no rio
e os meninos do rio, passeando com suas bicicletas engraçadas.
Vou sentir a sapucaí batucante
e os blocos todos dentro de mim nos dias de carnaval.
Vou pensar todos os dias no azul alvoraçado das águas de Ipanema
E, no amor que eu adiei viver.
e o fevereiro
e o março que eu não vou estar aqui.
Vou contar os dias pra ver o pôr do sol, no rio
e os meninos do rio, passeando com suas bicicletas engraçadas.
Vou sentir a sapucaí batucante
e os blocos todos dentro de mim nos dias de carnaval.
Vou pensar todos os dias no azul alvoraçado das águas de Ipanema
E, no amor que eu adiei viver.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Preguiça
Das coisas todas que eu não sei, me valho do tempo.
Mas, que tempo mais preguiçoso!
Às vezes, meu corpo só reage na parte embaixo do pescoço.
Mas, que tempo mais preguiçoso!
Às vezes, meu corpo só reage na parte embaixo do pescoço.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
O que pende
o que tende
o que sente
lateja
pulsa
borbulha
roxo
dourado -
a morenice
[aperta]
ele pede para que ela continue bonita,
ela pede para que ele continue por perto.
o que tende
o que sente
lateja
pulsa
borbulha
roxo
dourado -
a morenice
[aperta]
ele pede para que ela continue bonita,
ela pede para que ele continue por perto.
Estocagem
Pegou na mão todo aquele sentimento. O vedou - entre os dedos - para que ele não vazasse. Saiu correndo, em disparada.
Um vidro, tampa. Etiqueta, nome e data.
Fecha bem e torce para que não fique velho, todo aquele sentimento.
Um vidro, tampa. Etiqueta, nome e data.
Fecha bem e torce para que não fique velho, todo aquele sentimento.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Quase um ensaio: O Circo
(O salto, by Jeovanna Vieira)
(Balanço, by Jeovanna Vieira)
Bem me lembro o trapezista,
que mortal era o seu salto
balançando lá no alto, parecia de brinquedo.
Mas fazia tanto medo, que o Zézinho do trombone,
de renome consagrado, esquecia o próprio nome
e abraçava o microfone pra tocar o seu dobrado.
(sidney miller - o circo)
Bem me lembro o trapezista,
que mortal era o seu salto
balançando lá no alto, parecia de brinquedo.
Mas fazia tanto medo, que o Zézinho do trombone,
de renome consagrado, esquecia o próprio nome
e abraçava o microfone pra tocar o seu dobrado.
(sidney miller - o circo)
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Posição
Não é seguro estar ao lado
Não é garantia estar em cima
- ou por baixo.
Só toca, importa, impõe
se estiver dentro.
Não é garantia estar em cima
- ou por baixo.
Só toca, importa, impõe
se estiver dentro.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Quase um ensaio: Teto II
Proteção (by Jeovanna Vieira)
Alegria (by Jeovanna Vieira)
Homenagem (by Jeovanna Vieira)
Natural (by Jeovanna Vieira)
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Ninguém pára para o homem cinza passar
Triste é a sina do homem cinza.
O homem cor de asfalto,
ele caiu. Ninguém viu.
O homem cor de asfalto,
ele caiu. Ninguém viu.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Estréia
Da série: PALAVRA
Quebra-cabeça mais aliviante que é palavrar. Palavrar é o ato de colocar letra após letra, até que elas juntas façam algum sentido, ou sentido nenhum . A palavra vem da relação promíscua entre vinte e seis signos, vem do casamento de vogal e consoante, relação multigâmica sem ordem, orgia. Nesse lance de formar palavras vale tudo: ninguém é de ninguém, e ninguém tem sentido sem alguém. Todos eles deitam na mesma cama alfabética, nus , e se vestem depois de conotacões de quem está estimulando a desordem. Palavrar é um desejo extravagante que permite dislexia e dislalia, permite o desleixo. Palavrar é sobretudo um ato de liberdade e anistia. Palavra quem é com-paixonado pelos desafortunados da cognicão.
Palavrar é um movimento rítimico e anárquico. Deixa todo mundo com tesão e desse estímulo vem a procriação de palavrinhas. Palavrinhas seguidas de palavrinhas, sucedidas por outras, intercaladas por palavras grandes, palavras curtas, neologias e palavrões. Palavrar é um gozo de combinações infinitas e depois, vida à palavra.
Palavra viva.
Quebra-cabeça mais aliviante que é palavrar. Palavrar é o ato de colocar letra após letra, até que elas juntas façam algum sentido, ou sentido nenhum . A palavra vem da relação promíscua entre vinte e seis signos, vem do casamento de vogal e consoante, relação multigâmica sem ordem, orgia. Nesse lance de formar palavras vale tudo: ninguém é de ninguém, e ninguém tem sentido sem alguém. Todos eles deitam na mesma cama alfabética, nus , e se vestem depois de conotacões de quem está estimulando a desordem. Palavrar é um desejo extravagante que permite dislexia e dislalia, permite o desleixo. Palavrar é sobretudo um ato de liberdade e anistia. Palavra quem é com-paixonado pelos desafortunados da cognicão.
Palavrar é um movimento rítimico e anárquico. Deixa todo mundo com tesão e desse estímulo vem a procriação de palavrinhas. Palavrinhas seguidas de palavrinhas, sucedidas por outras, intercaladas por palavras grandes, palavras curtas, neologias e palavrões. Palavrar é um gozo de combinações infinitas e depois, vida à palavra.
Palavra viva.
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